Materia da cooperativa Paulista de Teatro

20 anos de Triptal

1 de setembro de 2011
O diretor de arte, Wagner Menegare, e André Garolli, diretor artístico da Cia Triptal.

O som de ondas do mar invadia a sala de exposições do hall de entrada do histórico edifício da Oficina Cultural Oswald de Andrade, no bairro do Bom Retiro, em São Paulo. Espalhados pelo local, objetos de aspecto antigo – que, a julgar pela escolha de trilha sonora, bem poderiam pertencer a navios do início do século passado – compunham, ao lado de dezenas de fotos coloridas, um cenário um tanto quanto anacrônico.

A disparidade, no entanto, tinha motivo: registrar, em exposição, os 20 anos de história da Companhia de Teatro Triptal, que, desde 2004, desenvolve o projeto cênico Homens ao Mar, baseado nas obras do dramaturgo norte-americano, Eugene O’Neill – conhecido por suas peças sobre o cotidiano nos navios da marinha mercante do início do séc. XX.

Apesar da presença marcante de O’Neill na trajetória da companhia, a ele não se resume a Triptal. Tendo transitado entre o adulto e o infantil, e a comédia e o drama, executando textos de Martins Penna, Molière, William Shakespeare, Maria Clara Machado e Plínio Marcos, o grupo dispõe de um diversificado e premiado repertório.

Uma das instalações da exposição, na Oficina Cultural Mário de Andrade.

História. A Triptal surgiu da reunião entre jovens atores iniciantes que participavam, em meados de 1990, de oficinas culturais ministradas na cidade de São Paulo. Entre eles estava André Garolli, atual diretor da companhia, que participou Oficina Jacob Chick, responsável pela montagem do primeiro espetáculo do grupo: Desgraça de uma Criança, de Martins Penna.

A partir disto, a recém-formada companhia começou a participar de diversos festivais de teatro amador, ao passo que ia montando suas novas peças – entre as quais, Escola de Mulheres, adaptação de texto de Moliére, e uma releitura do clássico shakespeariano Romeu & Julieta. É também nesta fase que surge a ideia de se enveredar pelo universo infantil, a partir da adaptação de Desgraças de uma Criança, posteriormente adaptado ao público infantil e renomeado como Travessuras de uma Criança – que acabou tornando o grupo, que já havia conquistado seu próprio teatro para execução de repertório, relativamente conhecido.

Então, em 1994, tem início o projeto Maria Clara Clareou, que englobava sete espetáculos baseados em textos de Maria Clara Machado – entre os quais, A Menina e o Vento, Tribobó City e O Rapto das Cebolinhas – apresentados até o ano de 2003.

Após Maria Clara Clareou, ainda em 2003, o grupo inicia os trabalhos de pesquisa sobre Eugene O’Neill que dariam origem ao ciclo Homens ao Mar, composto pelas peças Luar sobre o Caribe (2004), Rumo a Cardiff (2006), Zona de Guerra (2006) e Longa Viagem de Volta para Casa (2007), e, em 2009, fariam a companhia ser convidada para o festival A Global Exploration: Eugene O’Neill in the 21st Century, realizado no Goodman Theatre, em Chicago, nos Estados Unidos.

Fomento. As Leis de Fomento ao Teatro tiveram papel importante na trajetória da Triptal: a companhia foi, por duas vezes, contemplada pelo projeto. Primeiro, entre os anos de 2007 e 2008, e, depois, na edição 2011-12.

Segundo André Garolli, o programa de incentivo foi fundamental para o início do projeto Homens ao Mar, que surgiu em um curso de formação de atores, ministrado por ele, como projeto de contrapartida social pelo Fomento concedido ao Grupo TAPA. “Como no grupo haviam muitos homens, saí à procura de textos com maior elenco masculino. Foi aí que esbarrei no trabalho de O’Neill”, conta.

O diretor, que fez parte do Movimento (pró-fomento) Arte Contra a Barbárie, no final dos anos 90, também declara que o investimento, conquistado pelo grupo em 2007, foi de grande importância para a estruturação e execução do projeto da companhia, que contava com apresentação de repertório e realização de debates e palestras sobre o tema. “Conseguimos multiplicar e potencializar a força criativa para o projeto”, comenta.

Reestruturação. Garolli acredita ser necessária uma revisão da relação entre os teatrólogos  e seu público. Ele diz perceber uma forte dificuldade na divulgação dos espetáculos do teatro de núcleos coletivos. “Como divulgar, se não existe verba?”, questiona. “Não acho que a questão seja o preço, já que existe público disposto a pagar R$200 para assistir um musical. Às vezes, penso que se começasse a cobrar o mesmo valor nos ingressos de minhas peças, o público talvez aumentasse”, ironiza, complementando que não crê, realmente, que este seja o “xis da questão”. “A verdade é que acredito que seja necessária uma política pública que possa contemplar igualmente todos os gêneros de expressões artísticas: do Mamma Mia ao Zona de Guerra”.

O diretor também se preocupa com o processo de desprofissionalização do ator de teatro que acredita estar sendo desencadeado pela falta de incentivo e público. “Hoje em dia, o ator, na maioria das vezes, só consegue trabalhar aos finais de semana e não consegue se manter só com isto. Estamos muito próximos do amadorismo generalizado”, consterna-se. Por isto, ele discorda da não-cobrança de ingressos que, em sua opinião, acostumam mal o público e desvalorizam o trabalho do artista.

Ele também vê a internet como um meio alternativo para a divulgação de trabalhos. Foi graças à rede que os organizadores do festival de Chicago conheceram, em vídeos postados no YouTube, o trabalho da Triptal com os textos de Eugene O’Neill.

Futuro. Contemplada com o Fomento, o coletivo passa agora a desenvolver um novo projeto, que pretende discutir a condição do marginalizado na sociedade atual. Dando início ao novo ciclo, a Triptal montou, em 2010, a peça Dois Perdidos em um Noite Suja, do dramaturgo Plínio Marcos. Além disto, o grupo estreou, recentemente, com o espetáculo Neblina, de O’Neill e deu início ao estudo do texto O Macaco Peludo, também do dramaturgo norte-americano. O ciclo sobre marginalidade também deverá contemplar as obras Abajur Lilás, de Plínio Marcos, Prisioneiro dos Olhos Verdes, de Jean Genet e O Ensaio Selvagem, de Zé Vicente.

A exposição sobre os 20 anos da Cia Triptal fica na Oficina Cultural Mário de Andrade (Rua Três Rios, 363, Bom Retiro) até o dia 22 de setembro. A entrada é franca.

Comentários
  1. Maria Moura disse:

    A passagem de vocês por Boa vista – RR vai deixar saudades…
    Ótimo trabalho o que estão fazendo! =)

  2. carla walfredo disse:

    voces estão de parabens…. Santarém adoro seu trabalho!!! esperamos novas visitas…

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s