A Obra
Dois perdidos numa noite suja (1966) é a reescritura de um conto do italiano Alberto Moravia, “O terror de Roma”. No conto e na peça aparece o mesmo ponto da discórdia, objeto de conflito: um par de sapatos novos. O enredo gira em torno de Tonho e Paco, dois miseráveis solitários que ganham a vida no mercado enchendo ou esvaziando caminhões e que, à noite, dividem com as pulgas um quarto de pensão.
As personagens da peça simbolizam a confluência de processos sociais e históricos, o primeiro vindo do interior com uma tradição arraigada no discurso de um Brasil arcaico e patriarcal, e o egundo, produto de uma sociedade urbana cujas relações afetivas são escorregadias, a pesar de viver na cidade, sua fala está marcada por uma formação discursiva, igualmente, machista e patriarcal.
O dialogo entre os dois constituiu-se em batalha, desde gírias até palavrões em que o baixo calão chega às raias do grotesco em essência. Nesse sentido, a palavra fere, machuca, visa atingir, desconstruindo identidades e rebaixando o sagrado e o ideal das personagens. O duelo entre elas é psicológico, cavando na psique, nos traumas e nos desvelados e desnudados via linguagem, o que se poderia denominar de um desconcerto existencial.
O ambiente em que esse conflito ocorre é degradado, descrito nos limites de um quarto de hospedaria e o mercado em que trabalham.
